Investimentos
Bolsa depois da eleição: o que 2014 ensina (e o que não ensina) sobre a queda de 2026
O Ibovespa caiu quase 14% no dia seguinte ao 2º turno e já perdeu perto de 20%. Em 2014, o tombo do primeiro dia foi pequeno: o estrago de verdade veio devagar, ao longo de um ano. Entender a diferença ajuda a não decidir no susto.

Lula foi reeleito no 2º turno de 25 de outubro, com cerca de 51,8% dos votos válidos. No dia seguinte, o Ibovespa caiu 13,88% e fechou em 176.608 pontos. O circuit breaker, a pausa automática que a B3 aciona em quedas fortes, disparou pela primeira vez desde a pandemia. O dólar subiu mais de 8% num só dia e passou de R$ 5,40.
E não parou aí. Na terça-feira, 3 de novembro, a bolsa fechou a sexta queda seguida, perto de 165,5 mil pontos: cerca de 19% abaixo do último pregão antes do 2º turno. O dólar foi a R$ 5,49, o nível mais alto desde o fim de 2025.
Quem tem ações quer saber se isso é o começo de algo longo ou um exagero que passa. A eleição mais lembrada para essa comparação é a de 2014. Ela ensina bastante — mas não tudo.
O que aconteceu em 2014
Em 26 de outubro de 2014, Dilma Rousseff foi reeleita com pouco mais de 51% dos votos válidos. No dia seguinte, o Ibovespa chegou a cair 6,2% pela manhã e fechou em queda de 2,77%, aos 50.503 pontos. As ações da Petrobras perderam mais de 11%.
Só que, na mesma semana, o índice virou e terminou com alta de 5,18%. Três dias depois da eleição, o Banco Central surpreendeu e subiu a Selic de 11% para 11,25%. Quem olhasse só para aquela semana diria que o susto tinha passado.
Não tinha. O estrago de verdade veio devagar, ao longo do ano seguinte.
| Quando | Ibovespa | O que estava acontecendo |
|---|---|---|
| 27/10/2014, dia seguinte à eleição | 50.503 pontos (−2,77%) | Reação ao resultado |
| Primeira semana | +5,18% | Alívio rápido; Selic sobe para 11,25% |
| Fim de 2014 | 50.007 pontos | O ano fecha com −2,91% |
| Fim de 2015 | 43.349 pontos (−13,31% no ano) | Inflação de 10,67%, PIB −3,5%, Selic a 14,25%, perda do grau de investimento, dólar +48,5% |
| Fim de 2016 | 60.227 pontos (+38,93% no ano) | Commodities sobem; a Selic começa a cair em outubro |
A lição que 2014 deixa
Em 2014, a bolsa não despencou por causa de um domingo. Ela caiu ao longo de 2015, à medida que as contas do governo não fecharam, a inflação passou de 10%, os juros subiram até 14,25% e a economia entrou em recessão. Do dia seguinte à eleição até o fim de 2015, o Ibovespa perdeu cerca de 14% — e quase nada disso aconteceu na primeira semana.
A recuperação também não veio de um dia para o outro. Só em 2016, quando a expectativa para a inflação e os juros mudou, o índice subiu quase 39%.
O resultado da eleição dispara a reação. Quem decide se a queda fica é o que vem depois: as contas públicas, a inflação e os juros.
O que 2014 não ensina
- O tamanho: em 2014, o primeiro dia caiu 2,77%. Em 2026, caiu 13,88% — cinco vezes mais. Não é a mesma reação em escala maior: é outro tipo de movimento.
- O ponto de partida: entre os dois turnos de 2026, o Ibovespa tinha subido 6,75%, porque boa parte do mercado apostava no resultado oposto. Parte da queda é essa aposta sendo desfeita — o que, sozinho, não diz se o preço de hoje está caro ou barato.
- A economia de fundo: em 2014, o país já caminhava para a recessão. Em 2026, o desemprego está em 5,2%, perto da mínima da série, e a Selic, em 13,75%. Os riscos são outros, e a história não se repete no mesmo roteiro.
- A média do passado: de 1989 a 2022, a bolsa fechou a primeira semana depois da eleição em alta em oito de nove vezes. Em 2026, não fechou. Estatística de eleição tem poucos casos, e cada um tem a sua história.
O que observar daqui para a frente
Em vez do placar de cada pregão, os sinais que pesaram em 2014 e voltam a pesar agora:
- As contas públicas: que metas o governo vai perseguir no novo mandato e quem vai conduzir a política econômica.
- Os juros: a decisão do Copom desta quarta-feira, 4 de novembro, e o que o comunicado disser sobre as próximas reuniões.
- A inflação: se a alta do dólar começar a aparecer nos preços, o espaço para cortar juros diminui.
- Os juros longos: quando as taxas dos títulos públicos de prazo longo param de subir, é sinal de que o mercado parou de exigir mais prêmio para financiar o país.
Para quem investe, a pergunta útil no meio da tempestade não é "vendo ou fico?". É se o dinheiro que está em ações pode ficar lá por anos, e se a parte da carteira em bolsa é a que você aguenta ver cair 20% sem mudar de planos. Se a resposta for não, o ajuste é na divisão da carteira — e essa decisão, tomada no susto, costuma sair cara.
Por que algumas ações caem (e antes sobem) muito mais que o índice está explicado em "Eleição e bolsa: por que algumas ações sobem (ou caem) muito mais que outras", aqui no Novare News. E se a vontade de mexer vem mais da torcida que dos números, vale ler "Você investe ou torce?".
Fonte dos dados: Exame, “Investidor rejeita resultado das urnas e bolsa tem pior semana pós-eleição em 37 anos” (30 de outubro de 2026).
Publicado em 3 de novembro de 2026
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Equipe Novare
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